Uma fonte de metano esteve anos a passar despercebida, mesmo debaixo dos pés de quem vive nas grandes cidades: as redes de esgotos.
Uma equipa internacional liderada por um investigador da City University of Hong Kong estima que os sistemas de saneamento libertem entre 1,18 e 1,95 milhes de toneladas de metano por ano, um valor relevante para um gs com forte impacto no aquecimento global. O metano é o segundo gs com maior peso no aquecimento induzido pelo ser humano, a seguir ao dixido de carbono, e tem um efeito de curto prazo muito intenso. A mesma literatura de referência usada por vrias organizaçes climticas aponta que as emisses humanas de metano esto ligadas a cerca de 45% do aquecimento lquido atual. O que muda agora é a fotografia urbana: os esgotos deixam de ser “infraestrutura invisvel” e passam a entrar nas contas.
Yuan Zhiguo lidera ferramenta global para medir metano nos esgotos
O trabalho, publicado na revista Nature Water, resulta de cerca de 20 anos de investigaço coordenada por Yuan Zhiguo, professor na CityUHK, com contributos de universidades na Austrlia e na China, incluindo a University of Queensland e a Tianjin University. O objetivo foi criar a primeira ferramenta de estimativa pensada para uso global, num tema onde faltavam mediçes comparveis entre pases.
O mecanismo é conhecido para quem trabalha em guas residuais: em condutas com pouco oxigénio, microrganismos degradam matéria orgânica e produzem metano. O ponto crtico é que esse gs pode escapar por tampas, caixas de visita, pontos de ventilaço e estaçes elevatrias, sem ser necessariamente captado ou queimado. Um técnico municipal de saneamento em Lisboa, o “Marc”, resume-te o problema em linguagem de rua: “o esgoto est sempre a fermentar, e se a rede no estiver bem vedada, o gs encontra caminho”.
H uma nuance que vale a pena no varrer para baixo do tapete: a estimativa é global e no significa que “todas” as cidades emitam o mesmo. Redes antigas, infiltraçes, ligaçes indevidas e zonas com caudais baixos podem agravar condiçes anaerbias, mas a variabilidade local é grande. Mesmo com essa incerteza, a mensagem é dura para quem faz inventrios climticos, ignorar emisses de esgotos pode levar a subestimar o contributo real das cidades.
Satélites TROPOMI apontam emisses urbanas até 80% superiores
O novo alerta encaixa num padro observado por satélite: mediçes do instrumento TROPOMI, a bordo do Sentinel-5P, sugerem que vrias reas urbanas nos Estados Unidos estavam a emitir até 80% mais metano do que o reportado em inventrios oficiais. O estudo analisou doze grandes cidades, de Nova Iorque a Los Angeles, e reforça a ideia de que as fontes urbanas so mais complexas do que “um cano aqui e um aterro ali”.
Outro dado que pesa no debate é a tendência recente. Uma anlise de 2019 a 2023 encontrou, aps uma queda inicial, um crescimento das emisses urbanas: 10% nas cidades da rede C40 e 12% nas no-C40. A leitura é incmoda: enquanto muitas autarquias anunciam metas, a atmosfera regista outra coisa. E no d para empurrar tudo para a indstria, porque as periferias urbanas concentram aterros, estaçes de tratamento e ns de infraestrutura.
Para Portugal, a liço é pragmtica: medir melhor antes de prometer cortes. O satélite no “vê” esgotos diretamente, mas vê plumas e aumentos de concentraço que podem resultar de um conjunto de fontes, incluindo redes de gs, aterros e saneamento. Se os esgotos forem mesmo uma fatia importante, ento uma cidade pode estar a investir em frotas elétricas e ciclovias, e ainda assim falhar no metano urbano por no olhar para o subsolo.
Reduzir metano no saneamento exige manutenço e contabilidade climtica
O impacto do metano no é s mais um nmero. A Agência de Proteço Ambiental dos EUA descreve-o como mais de 28 vezes mais potente do que o CO2 a reter calor ao longo de 100 anos, e organizaçes climticas classificam-no como “superpoluente” pela força no curto prazo. Isto d urgência a medidas que cortem emisses rapidamente, e o saneamento entra nessa lista por ser uma infraestrutura j existente, onde intervençes podem ser direcionadas.
Na prtica, reduzir emisses passa por coisas pouco glamorosas: inspeço de tampas e caixas de visita, melhoria de vedantes, controlo de ventilaço e gesto de caudais para evitar zonas estagnadas. A crtica aqui é simples, e o “Marc” volta a ser til: “ninguém corta fita a trocar tampas, mas é a que o gs sai”. Sem dados, o risco é investir no que d visibilidade poltica e deixar escapar uma fonte que pode ser contnua, 24 horas por dia.
H ainda um efeito colateral positivo: inventrios mais rigorosos ajudam a comparar polticas entre cidades e a priorizar obras com maior retorno climtico. A descoberta nos esgotos no elimina outras fontes, como aterros e infraestrutura de gs, mas obriga a integrar o saneamento na contabilidade climtica. E, quando se cruza com sinais de aumento de emisses urbanas nos ltimos anos, fica difcil defender que o tema é marginal ou que pode esperar por “mais estudos” antes de agir.
Fontes
- Scientists Discover Hidden Methane Source Beneath Every Major City
- Scientists discover hidden ocean methane source that could worsen global warming | ScienceDaily
- Methane emissions from US urban areas ‘widely’ underestimated, satellite observations suggest – ABC News
- Hidden methane emerging from beneath the ice reveals Greenland’s sensitivity to climate change | EurekAlert!
- Urban Methane Emissions Are Rising, Despite Cities’ Pledges – Eos







